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Atenção no que é necessário. Junho 28, 2009

Filed under: merda,what's inside — paulamaria @ 6:58 pm
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Após a logorréia de aniversário, um texto descente que escrevi pra uma disciplina este semestre, no qual falo sobre existênc ia e indiferença. Vale a pena dar uma olhadinha. ^^

Venho por meio deste trabalho, revisitar um texto escrito para a disciplina de Pepa I, que cursei com Ana em 2007/1. Foi exatamente este texto que eu reclamei com Ana pelos pouquíssimos comentários dela na correção. Senti falta disso. Não sei se quando escrevi faltou alguma coisa ou se me excedi em algo. Falo aqui sobre um tema que mexe comigo há tempos. Um tema que passando pela Psicologia sem pensá-lo parece-me vazio. Falo da desvaloração da existência humana, dos limbos nos quais largamos muitas pessoas, e como que essas muitas pessoas “acabam” por ter características que achamos que distanciam de nós. Está certo que não sei exatamente se quero chegar a algum ponto, algum fechamento, alguma resolução. Todavia também chego aqui e continuo aqui na vida com meus preconceitos e preceitos de vida. E sei ainda que o descolar-se e jogar-se no repensar é uma tarefa que nunca deve cessar. Então vamos tentar uma prosa de verso sobre isso, uma conversa, um inquietamento, um pulso de coração.

A noção de existência nos inquieta a todo momento. Bergson nos diz que e vida é força explosiva, de um “equilíbrio instável das tendências”. Somos pegos de surpresa quando alguns episódios nos lembram, nos surpreendem de que estamos vivos. Espetamos o dedo numa agulha, vem a dor e o reflexo de afastamento! Corremos para atravessar a rua porque sabemos que um atropelamento pode ser eminência de morte! Buscamos modos de vida “saudáveis” para alongar o que chamo de “perambulação sobre a terra”. Gosto de referir-me assim ao que se chama comumente de vida, ou de vivência, ou outra coisa qualquer, pois creio que não precisamos de um propósito final para estarmos aqui. Não é pelo “objetivo” de vida que acordamos todos os dias. Tem algo mais ou algo de menos. Mas principalmente no é individual é que afirmamos nossa existência, nossa sobrevivência. Por isso digo que perambulamos, por isso e por outras coisas – que discorrerei durante o trabalho – que dói a lida da vida psi, e fora dela também. Falo da implicação, do compromisso, do comprometimento à mudança, ao pensamento afirmativo, ao cuidado coletivo significando o cuidado de si.

Dito isso, mergulho mais afundo na temática a partir da discussão das afetações produzidas em mim após assistir ao filme “Juízo” de Maria Augusta Ramos (2007), ao assistir alguns vídeos na internet (vídeos aleatórios, com diversas temáticas), também algumas notícias de jornal e, claro, a vivência cão do pão nosso de cada dia. O filme não retrata a questão diretamente da existência. É um documentário que mostra audiências públicas na Vara de Infância e Adolescência do Rio de Janeiro – RJ. São audiências reais, que duram aproximadamente de cinco a dez minutos, na presença do julgado, de um juiz (que se representa na maioria das audiências por uma juíza), um promotor e um defensor público. Algumas vezes, há a presença de um familiar do julgado, apresentando-se mães, irmãos, vizinhos, avós. A aparição dos menores é encenada por pessoas de similaridade de classe social e aparência física, desde que o menor infrator tem sua identidade protegida por Lei:

O adolescente civilmente identificado não será submetido à identificação compulsória pelos órgãos policiais, de proteção e judiciais, salvo para efeito de confrontação, havendo dúvida fundada. (Art. 109, Estatuto da Criança e do Adolescente, 1990).

O nome do documentário me fez pensar na reflexão da palavra “juízo”, mas isso só aconteceu bem posteriormente à época que assisti. Citando Deleuze em “Para dar um fim ao juízo”, temos uma dimensão histórica social da construção de tal significado: a condição do juízo se dá na “consciência de ter uma dívida para com a divindade”, a aventura dessa dívida na medida em que ela mesma se torna eterna, logo, se torna impagável, insolúvel, impossível de ser descolada do sujeito em questão. O juízo nessa perspectiva diz de uma relação de poder que cala, que produz o apagamento de existência, o esquecimento do humano em qualquer lugar que não perturbe a ordem social.  A partir do uso da lei como instrumento de aplicação do juízo – que é moral, ou seja, transcendente, intocável, a priori – lemos:

A lei é uma gestão dos ilegalismos, permitindo uns, tornando-os possíveis ou inventando-os como privilégio de classe dominante, tolerando outros como compensação às classes dominadas, ou, mesmo, fazendo-os servir à classe dominante, finalmente, proibindo, isolando e tomando outros como objeto, mas também como meio de dominação.  (DELEUZE, 1997. p. 39).

Como exemplo disso, temos no longa metragem, a juíza, que representa ali o poder maior – a lei –  e, principalmente, o conjunto de conceitos que configuram a imagem do menor infrator. Ou seja, a imagem comum da infração, da violência, do perigo social. Um sujeito que possui endereço, classe social, estatura, cor da pele, escolaridade, faixa etária pré-estabelecidos subjetivamente (como naturalização social) e objetivamente (na definição de pesquisas científicas de “risco social”). Tais definições e delineamentos partem da  sociedade, ainda que o desenvolvimento e afirmação destes passem muitas vezes despercebidos, o que acarreta na tomada deles como transcendentes e a priori, como as leis. Juntamente a estas concepções, vemos o princípio da ética sendo conturbado, distorcido, usando-o de modo contra a afirmação da vida, contra a postura de levar em consideração o outro enquanto ser humano que sente, que sofre, que luta, que resiste.

Exemplifico, de maneira “banal” mas nada simples: um menino visto como cometendo seu maior absurdo – matar o pai – sendo que este lhe violentava  todos os dias, com força física e com palavras. E ainda, a ausência do arrependimento do menino levada em consideração como o maior agravante do crime. “Mas você não sente falta dele? Qual a lembrança boa que você tem do seu pai?”, disse a juíza, tendo como resposta: “Não me arrependo. Não tenho nenhuma lembrança boa”. Cabe aqui também citar que há uma cobrança da constituição de família “tradicional” (pai, mãe e filhos em certa harmonia, em certo amor), que pauta-se na cobrança social – arraigada na tradição cristã ocidental – que hipocritamente ainda existe em nosso mundo tão plural quanto o é hoje. Tal julgamento – vê-se claramente sem algum respaldo de vivência – se apóia no discurso de que a escola e a família garantem o “não-desvio” para criminalidade, garantem uma vida feliz. Da tradição de família brasileira, historicamente temos:

A educação moral deve ser prosseguida no lar e na escola, auxiliada por escolhas judiciosas de leitura. A educação religiosa, sem consideração de seu lado filosófico, traz incontestáveis benefícios psicológicos, sobretudo como reforço á ética, cujo simbolismo torna-se compreensível à criança que aceita mal a abstração. Além disso, os ritos, a pompa tradicional, a confissão, os dogmas rígidos etc., são poderosos agentes psicoterápicos, alem de encerrarem excelentes preceitos educacionais (GARCIA, 1942, p. 44).

Podemos fazer uma alusão da existência aos chamados e famigerados “papéis sociais” que comumente nos atribuímos. Se temos um emprego, se temos uma família, se estudamos, se lecionamos, se andamos de ônibus, se temos carro, se vamos ao supermercado, se vamos ao cinema, se temos cartão de crédito, se pegamos dinheiro na financeira…

[…] enquanto atores sociais vulneráveis diante de um grande ator em estágio de retratação – o Estado – estarão, nessa transição de século, em busca de novas determinações sociais, ou melhor, em busca de uma (re) construção social para uma identidade coletiva fragmentada. (CASTORIADIS, 1992, P. 13-26 apud MARTINS)
Atores sociais impedidos de atuar – neste caso, de atuar sendo pensado como a presença de papéis visíveis, coloridos e animados, com vida pulsante. Destituídos de qualquer papel social diante dos atores do Estado – que representam a sociedade hipocritamente democrática e roteirista dos papéis que podem ou não existir – encontram-se afirmando suas inexistências e confirmando a desistência social diante de suas situações. Relações de poder se afirmam e se fortalecem cruelmente dentro desta lógica perversa.

“O poder investe (os dominados), passa por eles e através deles., apóia-se neles, do mesmo modo que eles, em sua luta contra esse poder, apóiam-se por sua vez nos pontos em que ele os afeta”, diz Foucault nos explicando que poder é operatório, só se dá na relação. Ou seja, essa relação que denomino de perversa não é feita de um lado só da moeda, e até mesmo, nem feita de dois lados. Portanto, quero dizer aqui que o fazer dessa relação perpassa todos nós, todos estamos implicados na construção desses valores e no “deixar” que eles se fortaleçam.

Surpreendentemente, ao contrário do que vemos hoje na maioria dos casos-problema, não se trata de procurarmos um culpado, alguém para expiar nossa “culpa”.  Mais do que nunca, vejo a necessidade de reiterar uma co-responsabilização. Nascemos. E a partir daí, existimos. Existimos? Somos então, humanos? Ou vamos sendo humanizados? Tornamo-nos passíveis de sermos enxergados, tocados, vividos, sentidos? Desde que parto destas perguntas, proponho a reflexão e não a resposta delas.

Dentro dessa não afirmação – referindo-me ao longa metragem – e da negação  de existências – referindo-me aos vídeos da internet e programas televisivos – decorre um sentimento/sensação de aprisionamento no fora do que se pensa como possível na sociedade normalista. Tal aprisionamento gera angústia de viver, insegurança, depressão, caminhos que parecem não ter saída. Principalmente o que me preocupa mais é nessa vida sem perspectiva de vivência, a não escapatória inevitável desse dualismo – cartesiano de bem/mal, certo/errado, e outras mais – neste ponto, produz uma (in)existência obrigatoriamente unilateralista, sem escolhas e cerceada por uma irremediável verticalização das relações sociais afirmadas a cada sentença dada no filme, a cada comentário moralizador em vídeos no youtube, a cada comentário preconceituoso nas salas de aula, ônibus, enfim, no cotidiano.

Limito então, uma discussão final para um fechamento desse desabafo. Que representatividade é esta, que está em lugares como o poder Judiciário, o Executivo e o Legislativo? E principalmente fora de lá. Que representatividade é esta que afirmamos enquanto sociedade, que legitima práticas de inexistência para tantos, e o usufruto irrevogável e hedonista da vida para outros poucos? Por que legitimamos “os amoladores de facas” e também somos como eles, ao mesmo tempo que fingimos não o sermos?

Sem cara ou personalidade, podem ser encontrados (os amoladores de facas) em discursos, textos, falas, modos de viver, modos de pensar que circulam entre famílias, jornalistas, prefeitos, artistas, padres, psicanalistas etc. Destituídos de aparente crueldade, tais aliados amolam a faca e enfraquecem a vítima, reduzindo-a a pobre coitado, cúmplices do ato, carente de cuidado, fraco e estranho a nós, estranho a uma condição humana plenamente viva.” (A atriz, o padre e a psicanalista – os amoladores de facas p. 46, l. 10-16).

Antes mesmo de afirmar uma escola, uma família ou outra “instituição” qualquer, que senso comum de cidadania é este que está colocado em tempos pós-modernos e em um país de ascensão econômica e política? Um bom momento para repensar na vida, o que é elementar, primário, na condição humana das crianças e adolescentes que estão aí, em enorme número, nas ruas, nas calçadas, nas favelas que invadem a cidade (principalmente no Rio de Janeiro), nas escolas sem professores, nas escolas com professores amedrontados, perdidos… Do mesmo modo temos que pensar na condição humana geral, nessa vivência brasileira cheia de estigmas e de “jeitinhos”. Vamos engolindo nossos sapos e nos colocando na posição de vítimas do sistema. Com isso, nos anestesiamos com produtos e quem não alcança tal anestesia – por vários motivos – acaba por se perder em meio ao nosso turbilhão de exigências, medos, inseguranças, afirmações, e “paga nosso pato”. Podem me perguntar: mas AONDE estão tais práticas que você tanto citou sem localizar? Respondo sem medo: a “céu aberto”, é lá mesmo que  todos nós construímos e deixamos afirmar práticas e conceitos. Conceitos estes que marcam, que rotulam, que ferem, como ferro no couro do gado, principalmente a quem chamamos – utopicamente – juntamente com o maior centro de mídia aberta do país:  “a esperança, o futuro da nossa nação”.

ESTATUTO da criança e do adolescente, LEI Nº 8.069, 13 DE JULHO DE 1990.

GARCIA, J. A. Aspectos da Higiene Mental na Educação. Arquivos Brasileiros

de Higiene Mental, Rio de Janeiro, n. 1, 1942.

DELEUZE, Gilles. Um novo cartógrafo (Vigiar e Punir). In: ______, Foucault. São Paulo, Brasiliense, 1988, p. 33-53.

DELEUZE, Gilles. Crítica e Clínica. Pelbart, PP. (trad.). São Paulo: Ed. 34. 1997. p. 143 – 53.

L. A. Baptista, “A Atriz, o Padre e a Psicanalista – os Amoladores de Facas” In: A cidade dos sábios. São Paulo: Summus, 1999, p. 49.

MARTINS, A. M. A política do conhecimento: a identidade do saber e as novasreformas educativas. In: Política do conhecimento: velhos contos, novas contas. Célia Linhares (org) [et al]. Niterói: Intertexto, 1999

p.s.

Pepa I – Psicologia Escolar e problemas de aprendizagem

Ana : Ana Lúcia Coelho Heckert – professora docente do curso de Psicologia da UFES

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